Blog
Povos tradicionais defendem modos de vida coletivos como resposta às crises do clima e da biodiversidade em Cúpula Global
Valdeniza Vazquez, COIAB
20 .07. 2026  
6 minutes read
SHARE

A defesa dos territórios, dos conhecimentos ancestrais e das economias comunitárias marcaram a Cúpula Global sobre Modos de Vida e Conservação, realizada em Brasília, Brasil, no mês de maio e organizada pela RRIAPIBCOIABCONAQMIQCB e pelo MIR. Lideranças Indígenas, Afrodescendentes, de comunidades locais, representantes internacionais e autoridades públicas participaram de debates sobre modelos econômicos comunitários e direitos territoriais. 

Na abertura, representantes das organizações parceiras destacaram que os modos de vida coletivos são respostas concretas às crises climática e ambiental. 

Maria Alaídes discursa na abertura da Cúpula Global sobre Modos de Vidas Coletivos e Conservação, com Katia Penha à esquerda e Angela Kaxuyana à direita. Créditos: Lucas Wasson - RRI

“O que muitos chamam hoje de solução climática, nós chamamos há muito tempo de modo de viver”, destacou Angela Kaxuyana, representante da COIAB, afirmando que, para os Povos Indígenas, economia, cultura e conservação caminham juntas. Em sua fala, ela reforçou que os territórios Indígenas carregam práticas históricas de cuidado, manejo e proteção da vida. 

Katia Penha, da CONAQ, ressaltou que conservar a terra significa também preservar memória, espiritualidade e soberania alimentar. “A terra não é mercadoria, a terra é vida para todos”, afirmou. A liderança quilombola destacou que os modos de vida das comunidades seguem demonstrando caminhos possíveis de equilíbrio com a natureza diante da crise climática. 

Pela Iniciativa pelos Direitos e Recursos (RRI), Solange Bandiaky-Badji apontou os desafios enfrentados pelas comunidades no acesso a financiamento climático e mercados justos. “Os recursos destinados ao desenvolvimento comunitário baseado em direitos ainda representam menos de 1% do financiamento climático global”, alertou. Ela defendeu a reforma dos modelos de financiamento e o fortalecimento de parcerias voltadas às economias comunitárias. 

Solange Bandiaky-Badji faz seu discurso de abertura durante a Cúpula Global em Brasília, Brasil. Créditos: Lucas Wasson - RRI

Sessão magna: debate políticas públicas e bioeconomia comunitária 

A Cúpula contou com uma sessão magna conduzida pelas ministras licenciadas do Brasil Marina Silva e Sônia Guajajara, que discutiram o papel das economias comunitárias na conservação ambiental e os desafios para transformar essas experiências em políticas estruturantes. 

Os coorganizadores da Cúpula posam com as palestrantes principais Sônia Guajajara e Marina Silva. Créditos: Lucas Wasson - RRI

Marina Silva destacou os impactos profundos das mudanças climáticas sobre as comunidades tradicionais, não apenas do ponto de vista material, mas também simbólico e espiritual. “Essas comunidades entram num vazio de sentido”, afirmou ao falar sobre a destruição de territórios, referências culturais e modos de vida.  

Sônia Guajajara reforçou que os territórios Indígenas seguem entre os mais preservados do planeta, apesar da violência e da pressão exercida por atividades predatórias. “Enquanto o mundo nos aplaude dizendo que somos os guardiões, continuamos enfrentando muitas violências”, declarou. A ex-ministra destacou a necessidade de ampliar a presença Indígena nos espaços de decisão e afirmou que a bioeconomia comunitária deve estar baseada no manejo tradicional e no respeito aos ciclos da natureza.  

Durante sua fala, também apontou quatro condições fundamentais para o fortalecimento dessas iniciativas:  

  1. Demarcação territorial e consentimento prévio;  
  2. Fortalecimento das instituições comunitárias;  
  3. Acesso direto ao financiamento climático; 
  4. Combate à financeirização da natureza e às falsas soluções ambientais. 

        Trocas internacionais e construção coletiva 

        Ao longo da programação, lideranças e organizações compartilharam experiências práticas, desafios estruturais e propostas para fortalecer as economias comunitárias como eixo central da conservação ambiental e da justiça climática. 

              Participantes da Cúpula compartilham reflexões e experiências durante as oficinas em grupo. Créditos: Yago Kaingang - APIB

              A diversidade comunitária, a luta pela autodeterminação, o reconhecimento territorial e o acesso direto às áreas de uso foram pontos centrais das discussões. Experiências concretas de manejo, organização produtiva e governança territorial foram trazidas pelos representantes, evidenciando como as economias comunitárias já operam em diferentes contextos globais. 

              Fabiola Zerbini, Diretora Executiva da Conexsus, destacou o conceito de sociobio economia como historicamente invisibilizada. “Essa economia não é de nicho, ela foi historicamente invisibilizada pelas políticas públicas e pelo mercado.” 

              Ela defendeu arranjos que combinem crédito, assistência técnica e acesso a compradores diretos, além de maior reconhecimento das comunidades como protagonistas econômicos. 

              Jason Rasevych discursa durante a Cúpula. Créditos: Lucas Wasson - RRI

              Finalmente, os impactos históricos da colonização foram mencionados junto com barreiras estruturais como os desafios logísticos, às disputas sobre a tomada de decisão nos territórios e barreiras no acesso a financiamento e autonomia econômica. 

              O convite de Jason Rasevych, trouxe a perspectiva das Primeiras Nações no Canadá, a necessidade de compreender a riqueza para além do dinheiro. “Capital é importante como ferramenta, mas riqueza também é modo de vida, capacidade de decisão, esperança e autonomia.” 

              Sessões de experiências e participação comunitária 

              Lideranças também apresentaram experiências vividas em seus territórios, com forte ênfase na perda de florestas, na luta por direitos e na reconstrução de modos de vida. 

              Maria Alaíde, do MIQCB, se emocionou ao relatar décadas de organização das quebradeiras de coco babaçu. “Se dependesse das quebradeiras de coco, escreveríamos placas no pé de cada palmeira: me deixa viver”, disse. 

              Ela destacou a criação de cooperativas e fundos comunitários que já apoiam famílias em territórios de coco babaçu. 

              Zack Romo, representante da COICA, reforçou a importância da governança Indígena sobre os mecanismos econômicos: “Conservar é consequência da excelente gestão dos Povos Indígenas sobre seus territórios.” Ele também defendeu métricas próprias para medir impacto a partir das comunidades. 

              Palestrantes posam após uma das sessões da Cúpula. Créditos: Yago Kaingang - APIB

              Mina Beyan, do SESDev na Libéria, destacou o avanço do monitoramento comunitário como ferramenta de defesa territorial. “As comunidades estão produzindo dados que antes não existiam para o Estado”, disse. 

              Mesmo com origens e experiências tão diversas, ficou evidente que os territórios enfrentam desafios comuns e que as comunidades propõem soluções semelhantes e complementares. Além de trabalhar para gerar transformações sistêmicas, há uma grande oportunidade de continuar criando espaços de diálogo e intercâmbio que alimentem as agendas locais e globais. 

              Economia, território e futuro coletivo 

              Ao longo dos debates, consolidou-se uma visão comum entre os participantes: não há economia comunitária sem território, nem conservação sem justiça social. 

              As discussões apontaram para desafios estruturais como acesso a financiamento, barreiras legais, intermediação de mercados e impactos da exploração predatória. Ao mesmo tempo, apresentaram soluções já em curso, como cooperativas, redes internacionais, certificações comunitárias, monitoramento territorial e modelos próprios de governança econômica. 

              O conjunto das contribuições reforçou que os modos de vida coletivos não são alternativas marginais, mas sistemas já existentes que sustentam biodiversidade, culturas e economias em múltiplas regiões do mundo. 

              Os resultados acumulados das discussões, dos painéis e dos grupos de trabalho foram consolidados como base para a construção da Declaração de Brasília, documento que reúne um chamado à ação e recomendações voltadas à transformação dos modelos atuais de desenvolvimento, conservação e financiamento. 

              Acesse aqui a Declaração.

              Stanley Kimaren Ole Riamit lê parte da Declaração de Brasília durante o último dia da Cúpula. Créditos: Yago Kaingang - APIB

              Assista ao vídeo completo da Cúpula abaixo

              Cúpula Global sobre Modos de Vida e Conservação 2026